Oficina de Música de Curitiba abre inscrições para cursos BISS 4 QUARTA-FEIRA, 15/10/2008 l biss@gazetadoparana.com.br l (45) 3218-2527 biss FRANKFURT C M Y K Feira promete cardápio de polêmicas Evento inicia com discussões envolvendo a Turquia, país convidado, que já desperta acaloradas trocas de farpas UBIRATAN BRASIL DA AE - SÃO PAULO Sob a pesada sombrada crise mundial que assola o mercado financei ro, a Feira de Livros de Frankfurt, o maior e maisimportante evento edito rial do planeta, inicia hojesua 60ª edição, prometendo um cardápio vari ado de polêmicas. Comoem todos os anos, repre sentantes das principaiseditoras do mundo reú nem-se durante cincodias, iniciando ou definindo negócios que po derão resultar em vendas espetaculares. Outros assuntos, no entanto, deverão figurar na pauta principal. Deum lado, o efeito da turbulência nos mercados fi nanceiros globais, queainda não foi devidamen te medido mas será temade debates durante a feira, que termina no domingo. De outro, as dis cussões envolvendo aTurquia, o país convidado deste ano que já des perta acaloradas trocas de farpas. A primeira aconteceu há algumas semanas, quando 20 escritores turcos anunciaram um boicote ao evento em protesto contra o convite feito a autores acusados de "ofender a nação turca", como é o caso do Prêmio Nobel de Literatura de2006, Orhan Pamuk. A medida reflete a tensão entre nacionalistas, islamitas e indepen dentes, que domina a rotina da Turquia há alguns anos. Pamuk gerou uma onda de protestos ECONOMIA UBIRATAN BRASIL DA AE - SÃO PAULO O efeito da crise na economia mundial será observado com atenção pelos editoresque vão a Frankfurt acertar negócios. A ex pectativa é que a terrível onda se transforme em uma pequena marola quando bater nos pés do mercado editorial. "A derrocada domercado financeiro nos pegou em um mo mento, para usar o jargãozinho da moda, muito alavancado, de grande competição entre as editoras, ao mesmo tempo em que vínhamos observando o crescimento real do público consumidor de livros", comenta adiretora editorial da Record, Luciana Villas Boas. Ela está em Frankfurt, depois de passar por Londres, onde visitou agentes literários, em uma antecipação dos trabalhos da feira alemã. "Lá, muitos disseram estar vendo omercado brasileiro como a tábua de salva ção. Não deixa de ser irônico", observa.Mesmo assim, a ameaça de uma reces são mundial preocupou diversos editorespelo mundo. O angolano José Eduardo Agualusa notou, por exemplo, um clima pessimis ta no mercado português. "Muitos pensaram em rever contratos para evitar um prejuízomuito grande na possibilidade de a crise per sistir", afirmou. "Até mesmo alguns escritores pensaram em mudar de casa editorial comoprecaução, buscando editoras que vivem si tuações mais consolidadas."Tamanho excesso de cautela é, no en tender de Luciana, uma atitude normal dos profissionais da área. "Em geral, o editor é um profissional pessimista", observa. "Se amédio prazo, a crise não desse sinais de ar refecer, talvez houvesse uma retração nosinvestimentos. Mas apenas nas editoras ca pitalizadas de fora, por bancos ou fundos de investimento, que deveriam estar mais seriamente preocupadas neste momento."Mesmo assim, o clima ainda é de eufo ria, contaminado pela espetacular reação dos mercados em todo o mundo. Assim, esse início de semana positivo deverá persistir na feira, espera a editora da Record. "Creio que a feira de Frankfurt será tão competitiva para os editores brasileiros quanto a do ano passado ou quanto a feira de Londres, em abril." Segundo ela, o momento ainda não é tão desanimador. "Desacelerar agora, não seria fácil. Psicologicamente, não seria fácil". Editores esperam reações amenas da crise NÚMEROS 7 mil exibidores Mais de 100 países como a Turquia, homenageada do ano 2,7 mil eventos 5 dias de feira PLIVRO DIGITAL UBIRATAN BRASIL DA AE - SÃO PAULOA discussão sobre o futuro do livro também está na pauta da Feira de Frankfurt. Es pecialmente a digitalização, caminho que, segundo especialistas, deverá criar uma nova geração, de leitores eletrônicos. "Faz 10 anos que o livro digital está prestes a se tornar emum produto de massa, mas apenas nos últi mos anos é que surgiram condições para issoacontecer", observou o diretor da feira, Jür gen Boos.Ele comparou um modelo antigo, o ro cket book, surgido há 9 anos, e os atuais. O rocket, além de pesado, trazia uma tela que não oferecia a sensação de se estar com um livro tradicional nas mãos. Já os atuais são cômodos, de fácil manejo e sua leitura não écansativa para os olhos. Para Boos, a tendên cia é que as duas formas convivam juntas,especialmente em mercados onde a presen ça do livro tradicional ainda é grande. "Obras que necessitam de atualização constante, como científicos, podem ter mais chance no formato digital", disse. Avanço também fomenta discussõesnas aos catalães. Boos rebateu dizendo que a maioria das editoras da Espanha tem sede em Barce lona. No próximo ano, o país convidado será aChina e já se esperam debates sobre liberdade, especialmente de imprensa, e também sobre a situação do Tibet, mais es pecificamente a atuaçãodo Dalai Lama. Boos ga rante, porém, que, aocontrário do ocorrido durante a Olimpíada de Pequim, quando autoridades chinesas tentaram es conder os assuntos maisespinhosos, tais discus sões deverão estar napauta da Feira de Frank furt de 2009. Até mesmo o eventode 2010, que vai home nagear a Argentina, não escapou de polêmicas. Ao anunciar os nomes de Carlos Gardel, Evita, Che Guevara e DiegoMaradona como representativos da cultura ar gentina para a Feira de Frankfurt, a presidente do comitê organizador, Magdalena Faillace, foibombardeada pela comunidade literária, reclamando a ausên cia de escritores consagrados como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, que só foram incluídos depois. Mesmo assim, a gritaria continuou por conta do esquecimento de outro grande autor, Ernesto Sábato. Sem deixar de reconhecer os méritos de Sábato, Magdalena não o incluiu na lista, pois considera que apenas Borges e Cortázarassumem a categoria de ícones representa tivos da literatura argentina no mundo. Ajustificativa não acalmou totalmente os ânimos, especialmente pela presença de Maradona, glória do esporte mas com nenhu ma relação com a cultura. Os dois anos quefaltam até a data serão certamente marca dos por muita discussão.quando, em fevereiro de 2005, em entrevista a uma revista suíça, afirmou: "Um milhão de armênios e 30 mil curdos foram assassinados nessas terras e ninguém, exceto eu, se atreve a falar sobre o tema." A referência ao assassinato massivo de armê nios durante o Império Otomano, assim como o conflito curdo no Sudeste do país, revoltou os nacionalistas, resultando emameaças de morte e até na tentativa de destruição de seus livros, pedido por um oficial de província, mas logo anulado pelo go verno turco. Outro nome polêmico é o da escritoraElif Shafak, cuja presença em Frankfurt também desagrada os nacionalistas. Ela é auto ra de "A Bastarda de Istambul", livro em quetambém trata do massacre ao narrar a his tória de uma família turca e outra armênia. Assim, como Pamuk, Elif foi inocentada da acusação de crime contra a pátria, em 2006,mas continua na lista negra do nacionalis tas.Cerca de 200 autores turcos devem par ticipar de 350 eventos preparados de formaa apresentar uma cultura ainda pouco conhecida no estrangeiro. "Apesar de apresen tar uma escrita rica e variada, a literatura daTurquia é pouco conhecida fora de seu ter ritório", comenta Jürgen Boos, diretor daFeira de Frankfurt desde 2005, que não descarta discussões acaloradas entre os escri tores turcos. Boos não esconde também um prazer incontido pela polêmica. No ano passado,quando a Catalunha foi a convidada, escri tores espanhóis se recusaram a participar doevento, considerado por eles simpático ape GIOVANA DANQUIELI/DIVULGAÇÃO Orhan Pamuk, Prêmio Nobel de Literatura de 2006 DIVULGAÇÃO