Sem palavras... Quarta-feira, 15/10/2008 - Paraná - GAZETA DO PARANÁ OPINIÃO 2 E-mail: opiniao@gazetadoparana.com.br Telefone: (45) 3218-2520 É preciso ter ações destemidas para socorrer a sociedade que varre para debaixo dos tapetes as suas sujeiras e, com isso, estimula a sua própria e completa degradação Sinuca I O senador Osmar Dias enfrenta um duro dilema com relação ao seu futuro político. Segundo informações advindas do front da guerra política que se instalou em Londrina, por conta da disputa eleitoral entre PSDB e PP, o parlamentar paranaense teria sido, sim, convidado pelo próprio presidente da República, Lula da Silva, a ser o líder das esquerdas na eleição de 2010, para dar combate ao crescimento do PSDB no Paraná. Assim sendo, deixa de lado amizades e cria até mesmo indisposições familiares para atender o pedido do presidente. Em troca, fica com PT, PMDB, PDT e PP à disposição. Quem confirma a história é o presidente do PP estadual e vice-líder do Governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros. Sinuca II A informação sobre o pedido de Lula aconteceu um dia depois que o senador resolveu tornar público o apoio pessoal e político ao candidato Luiz Carlos Hauly do PSDB, à prefeitura de Londrina. Escândalo Confirmando o velho e surrado ditado de que "o baratosai caro", o governo do Estado está amargando uma pen ca de obras contratadas pelo preço mínimo licitado às vezes até menos ainda que se encontram paralisadas em função da desistência da empreiteira. O governoconstatou que empresários do ramo de engenharia estão preferindo deixar o serviço inacabado depois, é claro, de receberem algumas gordas parcelas do que so frer um irreparável prejuízo no fim do contrato. O quepoderia ser evitado se as regras das concorrências públicas fossem outras e mais rígidas. Diante desse quadro, a Comissão Permanente de Fiscalização do Legislativo resolveu convocar o secretário Especial de Assun tos Rodoviários, Rogério Tizzot (também diretor geral do Departamento de Estradas de Rodagem), e o secretário Especial de Obras Públicas, Júlio César Ribeiro Filho,para se explicarem na Assembléia Legislativa. Eles te rão que fazer um relato circunstanciado sobre as obrasinterrompidas, inacabadas e até mal realizadas, por empresas que teriam recebido o aporte financeiro, em par te ou no total, sem, no entanto, darem cumprimento cabal ao contrato firmado com o Estado. POLÍTICA & CIA. FRASES Para justificar sua decisão, o senador disse estar convencido que está se aliando a quem considera ter o melhor projeto para Londrina no segundo turno. "Conheço Hauly há mais de 20 anos. Juntos fomos secretários de Estado e somos parceiros no Congresso. Em 2006, tive o apoio dele nas eleições ao governo, mesmo com o PSDB não estando coligado com o PDT", disse. Do Outro lado da trincheira está Ricardo Barros, do PP, que apóia Antonio Belinatti (PP) Sinuca III Para completar, o senador pedetista ainda comentou que suas decisões na vida política têm como critérios a "lealdade e o compromisso com projetos para o benefício da população". A considerar tais parâmetros para as escolhas do senador e as costuras políticas que fez nesta eleição, é bem provável que Orlando Pessuti, peemedebista velho de guerra, acabe tomando este bastão e seja apresentado como "Uma lei não retroage para prejudicar" EPITÁCIO CAFETEIRA, senador do PTB-MA, que tem cunhada nomeada para um cargo comissionado no Senado, que fere a súmula viculante do STF, que impõe restrições ao nepotismo. "O Supremo vem dando liminares sem escutar a CPI. O ministro só pode ter sido induzido ao erro" MARCELO ITAGIBA, deputado federal que preside a CPI dos Grampos, criticando a atuação do Supremo Tribunal Federal. "É preciso deixar claro que não havia segunda intenção no pedido da CPI" GUSTAVO FRUET, deputado do PSDB-PR, sobre o mesmo assunto. sucessor de Requião ao desiludido presidente da República. Casa que falta pão No PT ainda reina a discórdia por conta de interpretações diversas das muitas correntes ideológicas que o partido cultiva sobre o real resultado obtido pela sigla na eleição municipal. Um setor do PT, conhecido como PT festivo ou funcionário, avalia que a eleição municipal foi uma grande vitória incompreendida. Já a ala mais radical, os xiitas, acreditam que o partido passou vergonha na eleição, encolheu e expôs o partido do presidente ao ridículo. A discussão, por vezes violenta, acabou vazando, e agora ambas as correntes se voltam contra a mídia impressa e eletrônica. Hoje seria um dia propício para muitas reflexões e ponderações sobre plantar sementes certas, em boas terras para colher bons frutos amanhã. 15 de outubro é dedicado às homenagens ao profissionaldo magistério, o professor, figura de valor significa tivo que ainda carece de maior reconhecimento da sociedade. Muitos sãos os textos ao estilo de "ao mestre com carinho" para as justas homenagens.Porém, os acontecimentos registrados em Cas cavel desde o início da semana, deixaram muitosjornalistas e editorialistas, literalmente, sem pala vras. Domingo foi dia de festas. Dia da Criança, Diade Nossa Senhora Aparecida, mas nem tudo foi fes ta. Enquanto muitas crianças não tiveram nada para comemorar no seu dia, a não ser o fato da própria diversão deserem crianças... Ou tras sofriam as maisdiversas formas de vi olência. O que se pode dizer de um "tio" que embriaga as filhas de sua sobrinha, de 9 e 11 anos de idade para delas abusar sexualmente?Infelizmente, têm sido uma constante na sociedade brasileira (e do mundo também) comportamentos bestiais de seres que se dizem humanos contra as crianças. Não fosse o pai surpreender o indi víduo, teríamos mais duas crianças com profundasseqüelas físicas, psíquicas e emocionais. Com tantas ações para conscientização e combate à violên cia infantil e à pedofilia, ainda são muitos os que desprezam a vida.Mais estarrecedor ainda foi o ato de uma mulher na manhã de ontem, no Bairro XIV de Novem bro, em Cascavel. Depois de uma gestação de nove meses, Lídia de Souza, de 26 anos, e dar à luz emtrabalho de parto normal, teve a atitude absoluta mente "anormal" de "embalar" o recém-nascido, juntamente com o cordão umbilical e a placenta, em uma sacola plástica e jogá-la no Rio Quati. O quedizer do fato? Não há palavras para descrever o es panto, o assombro de tal atitude...Enquanto há pessoas dotadas de extrema sensibilidade e se comovem a ponto de ajudar e propor cionar alegrias a desconhecidos, há quem desprezea vida que em si mesma é gerada. Mas esta é a realidade dos dias de hoje. Valores cristãos, morais, éticos e fraternos estão mais que esquecidos, estão en terrados. E, voltando a falar aos educadores, hoje homenageados em todo o Brasil, aeles, depois da famí lia, cabem repassar à crianças, jovens eadultos, conceitos sobre a vida social har mônica e pessoal equilibrada. Aos governantes, antes de discursos inflamadosem defesa da união entre homossexuais, lei da homofobia e distribuição de preservativos nas esco las, é preciso ter ações destemidas para socorrer a sociedade que varre para debaixo dos tapetes as suassujeiras e, com isso, estimula a sua própria e com pleta degradação. Tudo que a criança que ontem foi jogada ao rio merecia, ao nascer, era carinho, afeto e proteção de uma sociedade que precisa ser imunizada contra a hipocrisia e vacinada contra a mentira. DIRETOR-GERAL Marcos Formighieri EDITOR-CHEFE Paulo Alexandre CASCAVEL Rua Fortunato Bebber, 868 85816-300 Cx.P. 413 PABX/Fax (0xx45) 3218-2500 Classificados: 0800 45-4040 Assinaturas: 0800-6434777 E-mails: diretoria@gazetadoparana.com.br, redacao@gazetadoparana.com.br, editorchefe@gazetadoparana.com.br, pautas@gazetadoparana.com.br, comercial@gazetadoparana.com.br, classificados@gazetadoparana.com.br, assinaturas@gazetadoparana.com.br Curitiba: Rua Capitão Virginio de Oliveira Melo, 108, Mercês 80510-110 PABX/Fax (0xx41) 3338-9191 REPRESENTANTES - Brasília Armazém de Comunicações (0xx61) 3323-9476; São Paulo Formato Publicidade (0xx11) 3813-6971; Belo Horizonte - NS&A - Núcleo de Soluções e Alternativas - MG (0xx31) 3411-7333; Rio de Janeiro Formato Publicidade (0xx21) 3262-6146; Porto Alegre Cevecom Veículos de Comunicação (0xx51) 3233-3332; Florianópolis Revecom (0xx48) 3223-2553. Artigos e cartas para seção de opinião devem ser encaminhados com no mínimo 30 linhas e no máximo 70 linhas, contendo identificação do autor, documento de identidade, telefone e endereço. Pró-culpa JOSÉ ROBERTO GUZZO É raro passar muito tempo, hoje em dia,sem que o brasileiro comum se veja acusa do de alguma coisa. Se algo está errado, se um grupo de pessoas tem um problema ouse alguém sofre um tipo qualquer de injus tiça, o cidadão já pode ir se preparando: a culpa provavelmente é dele. A maneira dedizer isso é conhecida: "A culpa é da socie dade". Ou: "A culpa é de todos nós". A culpa também pode ser "das elites", ou "da classe média" sendo pior, ainda, a situação dos que caem na classificação "elites brancas" e, pior do que tudo, "elites brancas do sul". A hipótese de que as pessoas atingidaspor qualquer dificuldade da vida tenham al guma responsabilidade, por menor que seja, em sua situação não é sequer considerada. Os culpados são sempre os outros, e esses outros são sempre os que conseguiram umgrau qualquer de sucesso, mesmo modesto, naquilo que fazem ou que são. Pouco im porta se obtiveram isso em razão de méritopessoal na forma de esforço próprio, ta lento individual ou simples trabalho duro.Os responsáveis pelas carências alheias, na falta de alguém que possa ser acusa do de imediato, são eles. É como acontece em certas rodas de pôquer: se depois de dezminutos de jogo ainda não deu para desco brir quem é o pato da mesa, cuidado é quase certo que ele seja você. No Brasil de hoje, num leque de problemas que vai dos índios macuxis de Roraima aos meninos derua de São Paulo, nem é preciso esperar tan to. O culpado não vai aparecer. Prepare-se, então, para ser denunciado. Tome-se o caso dos índios de Roraima, para quem o governo deu uma reserva comárea de 17.000 quilômetros quadrados. Resulta que há, na terra demarcada para os índios, gente que pelos mapas oficiais não de veria estar lá. Quem entra nesse tipo de boladividida assume riscos; mas, enquanto o Su premo Tribunal Federal delibera a respeito,não apenas os fazendeiros que cultivam áre as na reserva se vêem em julgamento. Vai seformando, ao mesmo tempo, um vago clima de denúncia contra os "brancos" em ge ral, especialmente os que decidem ir paralugares como Roraima ou para a Amazônia como um todo. Em outros tempos podi am ser considerados desbravadores, heróis ou patriotas, como o marechal Rondon ouPlácido de Castro. Hoje são freqüentemen te vistos como bandoleiros.O episódio de Roraima é apenas um en tre muitos. Avança no Brasil, cada vez mais, um movimento nacional pró-distribuição de culpa uma espécie de xis-tudo onde qualquer ingrediente pode entrar, desde que sirva para criar algum tipo de réu. O brasileiro é culpado pela pobreza em suavolta, pelas violências que ele mesmo so fre e, 120 anos depois da abolição, pelos problemas da população negra. Também é culpado por não ir para o trabalho em transporte coletivo, de bicicleta ou a pé. Cabe-lhe culpa pela degradação do biomada Amazônia, do cerrado e da Mata Atlân tica, embora muitas vezes nem saiba o que é o bioma. É acusado de não morar nas periferias, não ganhar o salário mínimo e não usar madeira certificada. É criticadopor colocar seus filhos em escolas particu lares como se fizesse isso porque gosta de torrar dinheiro pagando mensalidade. É culpa sua, enfim, que o Brasil seja injusto, dentro da idéia pela qual a desigualdade é provocada por quem, individualmente, é melhor e, como resultado disso, tem uma vida melhor. O problema, nessa maneira de ver o mundo, não é a escassez de maioresoportunidades para todos; é o fato de ha ver recompensas diferentes para resultados diferentes. OPINIÃO O sujeito oculto de toda essa questão, no fundo, é a hostilidade ao mérito. Ter mérito, para os agentes do Pró-Culpa, é prejudicar alguém. Não é um ativo; é um débito. Em vez de ser razão para incentivo, é algo a ser "compensado" uma maneira disfarçada de dizer desencorajado, limitado ou punido. É animador, nesse clima, ver um político como o deputado Ciro Gomes observar que o interesse comum só tem a ganhar com oestímulo ao mérito individual a "desigual dade positiva", diz ele. O deputado gosta dever a si próprio como um homem de esquer da; mas não acha que isso o obrigue a ser cego. O que ele parece estar perguntando é:"Que culpa um cidadão tem de ser inteligente?". A isso se poderia acrescentar que também não há nada de errado em ser talentoso, eficaz ou em trabalhar mais e, sobretu do, no fato de haver benefícios maiores para quem produz mais e melhor. O Brasil será um país bem mais arrumado quando tomar a decisão de concentrar-se na multiplicação de chances para quem está pior e deixar em paz quem está melhor. JOSÉ ROBERTO GUZZO é jornalista e conselheiro do Grupo Abril