A4 26 de agosto de 2009 o Pinião FOTO DO DIA EDITORIAL ARTIGO CRôNICA Muito a aprender Diante da imagem arranhada pelo polêmico encontro com a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira - em que DilmaRousseff lhe teria pedido para encerrar logo o processo de inves tigação que a Receita realizava nas empresas da família Sarney- e incomodada pela entrada da senadora Marina Silva na disputa eleitoral de 2010, parece que o PT encontrou a solução ideal para os males que afligem a ministra chefe da Casa Civil. De pois da divulgação do marco regulador do pré-sal, que acontecerá na próximo segunda-feira, Dilma sairá estrategicamente de cenapor pelo menos uma semana. É óbvio que a intenção é preservá la da fúria da oposição e da mídia, que têm deixado a ministra em maus lençóis. Nesse sentido, o Planalto, ao que tudo indica, já estabeleceu a tática a ser empregada. Naturalmente que uma tropa de choque, formada por ministros e outros nomes de primeiro escalão, além de deputados federais e senadores, ficará incubida de garantir a blindagem de Dilma contra convocações indesejadas - a exemplo da acareação que vem sendo pleiteada pela oposição entre ela eLina - e principalmente não permitir que ataques contra sua pes soa fiquem sem resposta. Esse tempo longe dos holofotes servirá, obviamente, para que a ministra-chefe da Casa Civil estude, de comum acordo com o partido, a melhor maneira de se postar e se transmitir diante dos temas polêmicos que são jogados diante dela. Nesse meio tempo,ela participará somente de agendas positivas, a exemplo de inau gurações do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) ou o anúncio do novo modelo de exploração do petróleo. Reconhecidamente neófita no contidiano da política, Dilma Rousseff ainda não possui necessário treinamento característicodo Partido dos Trabalhadores que lhe permita escorregar de qualquer armadilha, lição em que as velhas raposas felpudas da política brasileira eram todas mestras, a exemplo de José Maria Alk min, Getúlio Vargas, e o próprio Luiz Inácio Lula da Silva, em que pese este último ainda precisar que algumas arestas sejam aparadas. Ela ainda não aprendeu a controlar seu pavio curto,nem a se desviar sem problemas de "buracos na pista" - pergun tas para as quais não tem resposta estruturada.Dilma Rousseff, uma ex-guerrilheira, ainda não tem a necessária experiência de como viver a guerrilha urbana que os adver sários jogam com ela. Acha-se algumas vezes em situação difícil e não sabe como sai, daí, essas férias. Não se espantem se, após esseperíodo, a ministra regressar rejuvenescida (não na aparência física, pois isso ela já providenciou) e já com outro perfil. O "estágio" será intenso e concentrado. Quem quer ser presidente da Re pública tem que fazê-lo. Na manhã de ontem, o prefeito Roberto Viganó esteve reunido com lideranças políticas e do comércio local e estadual, para assinar a doação de um terreno, para a construção da nova sede do Senac. O encontro foi no gabinete do prefeito. ASSESSORIA ``Sereis iguais a Deus" - a tentação do humilde mortal Foi a figura da pré-história bíblica, que está em todos os livros da memória humana e ainda hoje faz parte do currículo do homem moderno. Embora corroído pelo verme da limitação humana, dacontingência, que a todos angustia, o homem guarda nos seus anseios de eternidade o desejo oculto de viver para sempre ou perpe tuar-se em seu poder, em sua glória ou no desejo louco de "ter". Jánão digo no desejo de "ser" pois, quem reflete sobre sua contingên cia, sobre a curva do caminho, que nos espreita, onde alguém nosobserva, com olhos infalíveis, a morte, dificilmente seria tão arrai gado ao poder ou à vaidade do "ter". O oposto deste caminho sem volta está a humildade, que noscoloca num lugar dos seres contingentes, que nos traz à mete o de sejo de sermos humanos sem sermos "deuses", que nos faz viver odístico ressuscitado pela Revolução Francesa: igualdade, fraternida de e liberdade. Sempre existe alguém que quer ser mais igual, mais fraterno e mais livre do que os outros. Para evitar este desatino humano, que no governo das naçõesleva à ditadura, ao despotismo, a História nos ensinou que as limi tações são muito importantes na busca da paz, do bem comum, da felicidade entre as famílias e entre os povos. Em todas as carreirashumanas há um viés de busca sem fim da riqueza, do poder, do prazer sem limites e de favorecimento aos familiares e amigos. As reli giões em geral nos ensinam a busca da humildade, do encontro com Deus, sem sermos "deuses".A sabedoria humana inventou as leis, como limite aos exa geros e possibilitar convivência entre os homens e entre os povos.As bem-aventuranças de Cristo são a coroação da vida de paz e fe licidade, por graça do Pai.Mas, o desejo de sermos "deuses" nos conduz a sermos desiguais e esquecermos a fraternidade e esquecermos a própria li berdade, pois, nossos direitos acabem onde começa o direito dosoutro, neste limiar do direito começam nossas obrigações, nos sos deveres. A Lei vem em socorro do equilíbrio e bem estar dos homens, para evitar exageros.Por exemplo, nos USA, e na maioria dos países, um presiden te, não pode voltar a ser novamente candidato ao deixar o poder.Ao atingir o poder máximo entre os homens e em a nação mais poderosa da terra, não tem mais oportunidade a se candidatar ao car go de presidente, deputado, senador. Como seria mais tranqüilo, se isso acontecesse no Brasil. Temos presidentes, que querem voltar a ser presidentes, ou senadores, como se fossem "deuses" insubstituíveis. Temos umexemplo no Senado, onde as veleidades dos EX está perturban do a paz entre os brasileiros. Não querem ceder os seus lugares,por vaidades, quando não por interesses mesquinhos. Estão agar rados de unhas e dentes ao poder e no desejo de serem bajulados eternamente.O Brasil não precisava passar por tantos vexames, principalmente no Senado, se não existisse este desejo de ser "deus" de ser al guém imprescindível quando, se vestissem o pijama e fossem cuidar dos filhos e netos, que tanto precisam dum pai e seriam muito mais importantes para a pátria. Infelizmente esses "deuses" não se lembram que têm pernas de barro, embora aparentem o brilho do ouro em seus olhos, que a terra, um dia, comerá. Genírio João Fávero, advogado, com formação filosófica e teológica O burrinho enganado Separado de seus pais antes de desmamar, pouco aprendera da vida. Assim qualquer um lhe incutia mensagens enganadoras.Como todos sabiam de sua burrice facilmente manobrável, aproveitavam-se para divertirem e passavam para a frente as idiotices in cutidas no miserável. A coruja, observadora reprovava as atitudes dos animais, mas também não se metia em encrencas ou discussões. Seu predicado era manter-se apenas como filósofa. Analisando os fatos, viu que criava-se ali um idiota dominado pela influência dos mais experientes, mas com fito exclusivo de desmerecer o animal. Corujamente pensando, tudo aquilo que se põe repetidas vezes na cabeça de alguém, um dia será caminho. O ensinamento aliado comlavagem cerebral, fixa até mesmo nos mais experientes. Seu instin to na defesa era quando atacado: morder ou escoicear, mais nada.A ardilosa serpente tendo que tirar algumas diferenças com a curu caca, que papava todos seus filhotes, propôs ao infeliz burrico umaempreitada.- Quem matar a curucara, transforma-se no rei dos animais! O burrinho absorveu tudo com naturalidade, crendo corre to. Para enfeitar, a serpente também incutiu na ideia do burro que após matar a curucaca, poderia matar qualquer um, pois já era: o rei, mandatário, juiz supremo de todos os bichos, detentor da Lei eda verdade e da vida. Não deu outra. Com certeiro coice a curuca ca desprevenida caiu mortinha. A coruja imediatamente ­gritandoa todos animais- levantou sua voz querendo Lei, justiça, igualdade! E ralhando: castigo aos que inverteram as noções da vida ensi nando propositadamente errado. A serpente intrometeu-se a fim denão criar remorsos ao criminoso que já era seu aliado e agora car rasco, dominado. O burrinho mandou a serpente calar a boca! Elacontinuou a matraquear e responder à coruja; no mesmo ato recebeu um duplo coice que a levou à morte. Como o burro era rei, fa zia o que queria, e o ensinamento aplicava-se a todos, assim tinha aprendido.Vivemos obedecendo as prescrições que nos são estabeleci das. As ações não acham erros ou defeitos dos atos se crê sejam corretos. O ignorante é levado pela paixão no contentamento da razão que se lhe atribui, pelo ensinamento. A serpente recebeu em troca, o que ensinou. Quem tem maus exemplos e maus mestres, mau será! Rubens Ciro Calliari - o escrivinhante A próxima crise, risco e caldo de galinha Parece que, finalmente, a crise sai do noticiário. Já se ouve falar da retomada docrescimento e da diminuição do desemprego. Teria esta sido a última crise, ou deve mos preparar-nos para a próxima? Não há lei que obrigue os ciclos de desenvolvimento a terminarem em crise, mas é da natureza humana e do capitalismo criar as condições para que ela aconteça. Ecomo prever o futuro continuará impossível, a alternativa racional que nos resta é ge rir e controlar os riscos de hoje. É como atravessar a rua na faixa de pedestres, ou tomar remédio para regular a pressão arterial. Fazemos isso para diminuirnossa exposição aos riscos de viver. É tam bém como usar capacete de proteção e fazerseguro. São as formas de minimizar os efei tos físicos e financeiros dos acidentes, caso não possamos evitá-los. Como aprendemosde nossos pais, quem não arrisca não petisca, mas cautela e caldo de galinha não fa zem mal a ninguém. Gerir riscos é isso: antecipar o quepode dar errado, agir para diminuir a probabilidade que o mal aconteça, e tomar ini ciativas que nos protejam, caso, mesmoassim, o mal venha a nos atingir. Os entendidos sistematizam a gestão de riscos em presariais em quatro fases:- Inventariar e classificar nossos ris cos, e decidir quais podem ser minimizados por ação própria;- Decidir qual o nosso "apetite de ris co", ou seja, o grau de risco que a empresa está disposta a aceitar;- Estimar, para cada risco, sua proba bilidade de ocorrência e o seu impacto em nosso negócio, caso ocorra;- Estabelecer qual será nossa respos ta a cada um desses riscos: evitar, mitigar, transferir ou aceitá-los. Ora, dirão os céticos, toda a gestão de riscos não evitou as perdas incalculáveisque o mundo sofreu com a crise. É verda de. Mas tomemos o exemplo dos prejuízos ocorridos com a alta do dólar no segundosemestre de 2008, depois de uma longa que da desde R$ 4,00 em 2002 até R$ 1,56 emagosto de 2008. Ao longo desse tempo, nin guém sabia qual era o piso do dólar. Mas, como cautela e caldo de galinha não fazemmal a ninguém, fechava-se antecipadamen te o câmbio das receitas de exportação paraimpedir sua deterioração. Esses instrumen tos de proteção evitaram perdas milionárias.Entretanto, também com o tempo, es ses mesmos instrumentos deixaram de ser caldo de galinha e transformaram-se, com a engenhosidade dos bancos, em algo maisparecido com faisão com trufas, que pro tegiam na direção do dólar em queda, mas penalizavam severamente com o dólar em alta. Estava criada a condição para grandesperdas, que se materializaram com a valori zação de 60% do dólar em quatro meses.Depois do fato, sabemos que pecamos na gestão dos riscos. Entre outras fa lhas, faltou reconhecer que a desvalorizaçãoincremental do dólar tornara-se muito me nos provável, e faltou informação de que o potencial já contratado de perdas chegara a um ponto insuportável. Com a provável exceção dos bancos,ainda temos muito a caminhar na imple mentação da gestão de riscos no Brasil. Francisco Fernandes é coordenador do Capítulo Paraná do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa ARTIGO