Pedro Rodrigues NetoPato Branco - A vida de Ma ria Inês de Souza, 48 anos, nemde longe reflete os padrões sociais que muitas mulheres alme jam como futuro e estilo de vida.As marcas da vida sofrida, estam padas em sua face queimada pelo sol, revelam uma realidade muitomais dura e indigna, uma condição de vida que poucos suporta riam. Porém para Maria os efeitosda pobreza parecem não incomo dar mais. Sem esconder o sorrisodo rosto um inuto sequere, ela re cebeu a reportagem do Diário do Sudoeste em seu barraco feito de compensados, coberto por cacos de telha e retalhos de lona preta. No interior o único luxo, se é que pode ser tratado dessa maneira, é um fogão a lenha, aparentementenovo. Fora isso, uma garrafa des cartável que um dia conteve dois litros de um refrigerante qualquerarmazea o único feijão que a famí lia tem para comer. Na mesa umempilhado de louças sujas, prova velmente usada na última refeição de sua família. Maria é viúva,um dia teve uma casa, mas por razões que ela evita falar, hoje mora em uma área de invasão às margens da BR-158. Lá, ela criou seus filhos, três no total. O mais velho hoje tem 25anos, e ainda mora na mesma in vasão onde cresceu. Na verdade, o rapaz não apenas cresceu como também consitituiu família no local. Maria não sente vergonha disso, pelo contrário estampa o orgulho de ter sobrevivido todo esse tempo em um local sem as mínimas condições de higiene e segurança.De poucas palavras, mas mui to receptiva, a dona de casa estácontente este ano, feliz como nun ca esteve antes, como ela mesmagarante. O motivo de tanta ale gria ela simplifica com uma frase."Será o primeiro natal que passa rei em uma casa de verdade em 25 anos", comemora.Maria é uma das contempla das por um programa social dehabitação implantado pela prefeitura de Pato Branco. O progra ma compreende a retirada de pelo menos 152 famílias que vivem emáreas irregulares, transferindo essas pessoas para conjuntos habita cionais construídos em convêncio com a Cohapar. Maria não serámais uma invasora, como foi vis ta durante 25 anos, e para ela issonão tem preço. "É difícil viver as sim, nunca mexeram conosco, mas a qualquer momento podiam retirar a gente daqui", disse.Junto com ela mais 30 famí lias devem ser removidas para o conjunto habitacional Nossa Tera 1 e Santa Fé, ambos em fase deconclusão. Com a chegada de novos recursos R$ 390.227,01, crédito autorizado ontem pela Cã mara dos Vereadores, a previsão de conclusão dessas duas obras épara dezembro desse ano. A me dida faz parte de uma política quevisa reduzir a quase zero o número de ocupações irregulares na ci dade.Maria diz que está contan do os dias para deixar o local que reserva lembranças de uma vida para ela e muitos moradores.No barraco próximo ao de Ma ria mora Rosalina de Oliveira, 40anos. Dona de casa, mãe de três fi lhos, um adotivo, Rosalina vê namudança para o conjunto habita cional um recomeço de vida para ela e seus filhos. Ela diz que seu maior receio em morar na invasãoestá na segurança e também pudera. A filha mais nova de Rosa lina quase perdeu a vida a poucosmeses. Vítima de uma bala perdida que atingiu sua cabeça, a crian ça ficou entre a vida e a morte no hospital e hoje, recuperada, vive com o projétivl alojado em seucrânio. "Vamos mudar para me lhor, disso eu não tenho dúvida", aposta. Lar doce lar As famílias removidas, 52 nototal, serão alojadas em residên cias de 33 metros quadrados, doisquartos, sala e cozinha conjugada, e banheiro, em dezembro des se ano. Além da área visitada peloDiário, famílias residentes na invasão da Capeg também serão re tirados. "Após esse processo, toda a área invadida será limpa e osbarracos serão desmontados", explicou o coordenador de habita ção da secretaria de Ação Social, Rodrigo José Correia.Para a segunda fase do pro jeto, a prefeitura preve a retiradade outras famílias, essas residentes em áreas de ocupação irregu lar no Cabo Dito e no Lago Azul. Ao todo serão investidos quase R$ 4 milhões em construção de casas, para que as áreas de invasão sejam praticamente zeradas. A15 27 de agosto de 2009 G eral Pedro Rodrigues Neto Pato Branco - Se a história de Maria e Rosalina dentro da invasão está com um final feliz marcado, a de outras famílias ocontexto parece se desdobrar para um futu ro ainda mais incerto. Isso porque algumas famílias perderam a vaga no programa de habitação por não estarem na cidade, apósa inscrição ser feita. A mudança de endereço, como é o caso de ELizabeth de Souza, filha de dona Maria, acabou por comprome ter seu processo habitacional. Ela conta queprecisou mudar para o estado de Santa Ca tarina, em virtude de um trabalho que seumarido havia tentado. Com moradia garan tida, paga pela empresa, a família arriscou um futuro melhor no estado vizinho,masos planos não saíram bem como eles queriam e o retorno a Pato Branco foi a me lhor saída. Hoje, a única certeza que Elizabeth tem é de que enquanto muitos já garantiram um teto para viver, ela, seus filhos e o marido, vão perder o barraco onde vivem e terão de procurar um novo teto, provavelmente improvisado. "Não sei o que fazer, perdi a vez e estou aflita", revelou. Maria tambémse preocupa e diz que em último caso, rece berá genro, filha e netos em sua nova casa. "Não tem outro jeito", garante.Como Elizabeth, outros moradores en contram-se na mesma situação e são elesque denunciam uma situação delicada. Elizabeth toma a frente para relatar que pessoas que já foram contempladas com pro gramas de habitação anteriores venderam suas casas e agora tentam conseguir outra. Segundo ela, por conta disso, não há vagas nos novos cadastramentos. "Eles vem do Alvorada, São João, Chaparral, participam das reuniões e se cadastram. Muitos deles já tiveram casas, agora estão morando em barracos de lona, tentando uma casa nova", denuncia. O coordenador de habitação daAção Social, Rodrigo José Correia con firma a prática e garante que nenhumdos contemplados em programas ante riores receberá nova moradia. Segundo ele, mesmo que essas pessoas consigamo cadastro na Ação Social, quem irá liberar o imóvel é a Caixa Econômica Fe deral. "Não tem como conseguir nada. A Caixa levanta se a pessoa já teve algumvínculo com outras cooperativas habita cionais. Se teve, o cadastro é reprovado imediatamente", garante. Ele também afirma que uma triagem desse pessoal foi feita e que a prefeitura játem conhecimento de quem são os oportu nistas que tentam garantir uma moradia.Elizabeth por sua vez pede que a prefeitu ra reconcidere casos como o dela, retirandoessas pessoas da lista, dando assim a opor tunidade dela e outras famílias entrarem na fila de espera novamente. "Aqui nós temos mais uma senhora, que mora num barraco la no fundo que precisa de moradia, perdeu o cadastro porque não estava aqui e agora será retirada do terreno sem ter para onde ir", concluiu. Moradores denunciam oportunismo no programa Maria finalmente voltará para sua casa Na porta de seu barraco, Maria espera o dia em que deixará o passado para trás para começar uma vida nova