A6 GERAL Correio de Sergipe · Aracaju sábado · 28 de março de 2009 Greve deixa 180 mil usuários sem transporte >> Em assembleia realizada no final da tarde de ontem, motoristas e cobradores decidem continuar a greve Fabio Brito N a manhã de ontem, osmotoristas e cobrado res de ônibus foram até às suas respectivas empresas, e saíram com os veículos como se fosse um dia comum detrabalho. Mas quando chega ram às principais avenidas da capital, estacionaram os ônibus, esvaziaram um pneu de cada veículo e cruzaram os braços,deixando cerca de 180 mil usuá rios a ver navios. "Terei que ligar para o meu chefe e dizer quenão poderei ir. Vim até o cen tro através de táxi lotação, pois me disseram que a paralisação iria acabar às 9h da manhã, já são 10h e nada. Nem táxi eu vou poder pegar, pois não sabia queisso iria acontecer e não trou xe dinheiro suficiente. Só estou com o cartão de ônibus", disse o estudante Mario Gonçalves dos Santos, que esperava, junto de vários outros usuários, o fim da paralisação. Em assembleia realizada na tarde de ontem, a categoria garante que a greve continua. Já a estudante universitária Jessica Maria, falou que iria ter que voltar para casa, pois já havia perdido aula. "Eu fui pegade surpresa. Moro aqui no cen tro e não tenho condições de pagar um táxi até a UFS. É um absurdo eles fazerem isso tão de repente, e prejudicar tanta gente", reclamou a estudante. Dezenas de ônibus tiveram osseus vidros quebrados por usuá rios em toda a cidade. Uma mulher chegou a ferir os pés com estilhaços dos vidros. Na Avenida DesembargadorMaynard, alguns usuários amea çaram incendiar os ônibus, que estavam estacionados ao longo da avenida, sendo necessária a presença da Polícia Militar. Dos cerca de 500 ônibus que atendem a capital, somente 116 estavam rodando, mas não iam até os terminais, obrigando os passageiros a descerem no meio do caminho. O movimento dos rodoviários não prejudicou somente os usuários de ônibus,por causa da paralisação, o trânsito de Aracaju virou um ver dadeiro caos. Engarrafamentos quilométricos se formaram nas avenidas Rio Branco, Ivo do Prado, Beira Mar, Hermes Fontes, Barão de Maruim, Tancredo Neves e Desembargador Maynard. Os agentes da Superintendência Municipal de Transportes eTrânsito (SMTT) estavam espa lhados em vários pontos da capital, tentando amenizar o problema. A paralisação foi organizada por um grupo de motoristas e cobradores, dissidente do Sindicato dos Rodoviários (Sinttra), liderados por Adriano Oliveira, rodoviário afastado da empresa em que trabalhava por justa causa, e que foi nomeado, segundo ele, o representante dos rodoviários. Eles marcaram uma assembleia na manhã de ontem, na Praça da Bandeira parar reivindicar o aumento salarial de 12%. "O que causoutudo isso foi o Sindicato da cate goria que está omisso. Viemos até a porta do sindicato e ainda essa hora, ele está fechado. Opresidente do Sinttra está criti cando e colocando a sociedade contra os trabalhadores, e cada vez mais os rodoviários ficam revoltados, e daqui para mais tarde o movimento crescerá e a mobilização será total. Aqui não há lideres, somos todos rodoviários e resolvemos parar as atividades na manhã de hoje", afirmou Adriano Oliveira. Um motorista de ônibus, que não quis se identificar, disse que o reajuste salarial não é o único problema da categoria. "Ilegal é descontar nosso FGTS e INSS e não repassar. Só recebemoso pagamento das férias quan do voltamos ao trabalho. Quando somos assaltados, os patrões nos obrigam a pagar, senão eles nos demitem. Isso sim que é uma falta de respeito.", revelou ele. O motorista disseainda que o Sinttra é um sindi cato que acata tudo que os patrões mandam, sem fazer nada em benefício da categoria.Apoiando o movimento, esta va o presidente do Sindicato dos Bancários, José Souza. Ele declarou que se trata de umapoio a uma luta classista, com posta por reais trabalhadores. "A sociedade é dividida em duas classes: a dos empresários e a dos empregados. Uma luta justa terá sempre o apoio da Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB) e do Sindicato dosBancários. É um suporte soli dário e classista, porque isso é da natureza das classes. Com certeza os empresários dos transportes estão tendo o apoiodo patronato. Não estamos par ticipando das decisões deles, e sim sendo solidários à qualquerque seja a decisão da catego ria", ressaltou Souza. Negociação - Enquanto a assembleia acontecia na praça da bandeira, O Secretário Municipal de Transportes e Trânsito, Antônio Samarone, convocou uma reunião com o presidente do Sinttra, João Batista e com o presidente da Força Sindical, William Roberto Cardoso. Segundo Samarone, medidas serão tomadas para que o cidadão não fique sem transporte. "A posição da SMTTé que os ônibus voltem a circu lar, e a da prefeitura é oferecer a população o serviço. Estamos aqui reunidos com o Sinttra, porque para nós só existe estesindicato. Não vemos ilegalida de em nenhum movimento que esteja dentro da lei. Como Estado e como gestor público, eu só posso conversar com quem está dentro da lei. Há umareunião marcada para a próxi ma terça-feira, para decidir oaumento dos rodoviários, o processo de negociação está andan do, mas nós da prefeitura não podemos esperar até terça-feira, precisamos de um serviço imediato. A população está narua, e uma grande parte chegou até o centro, e nós quere mos oferecer a ela um meio de voltar para as suas casas. Se até às 15h da tarde isso não se resolver, tomaremos umadecisão. Pensamos em autori zar aos táxis que façam lotação, mas não iria dar certo, pois a população não tem dinheiro para pagar, e a grande maioriasó possui o cartão de passagem, entretanto, encontrare mos um meio de fornecer otransporte à população", expli cou Samarone. Para o presidente da Força Sindical, Roberto Cardoso, a paralisação é totalmente irresponsável. "A Força Sindical não apoia esse tipo de manifestação. Eu acho que eles deveriam ter respeito, pelo usuário e pelo patrimônio privado. É uma paralisaçãototalmente ilegal. O que foi deci dido na assembleia do Sinttrafoi que o sindicato iria conti nuar as negociações com os empresários. E ficou definido isso, a legalidade é essa. O que aconteceu hoje (ontem) foi uma baderna. Não é justo que a população saia das suas casas e sejam jogadas nas ruas daforma que foi feito. Se eles queriam parar, deixassem os ôni bus nas garagens. Nós não apoiamos movimentos ilegais",disse ele. Roberto Cardoso cri ticou o apoio do presidente dos Bancários, José Souza, aomovimento. "Adriano está con tando com o apoio do CTB, mas por que Souza, quando fez agreve dos bancários, não inva diu as agências dos bancos, não destruiu os caixas e os vidros? Não estamos participando dessabaderna, isso é um movimen to feito pela 'nova central' do 'seu Souza' com o Adriano", afirmou Cardoso. O presidente do Sinttra, João Batista, declarou que AdrianoOliveira está querendo se promover e tentando ser o próxi mo presidente do sindicato. "Ele quer tomar o Sindicato, ele quer ser presidente de qualquermaneira, mesmo não pertencendo à categoria. O presiden te da Força Sindical, Roberto Cardoso, conversou com eleontem e disse que ficou saben do que os empresários tinham entrado com um dissídio, e orientou a Adriano para que não fizesse a greve, se não iam acontecer graves problemas. Ele, anteriormente, estava apoiando Adriano, aí quando viu que o ato iria ser feito de forma ilegal ele não o apoiou mais, e orientou a Adriano a não fazer a greve. Adriano disse para Roberto Cardoso que eranecessário fazer isso para mostrar a força que eles têm", afir mou Batista. João Batista contou que foi questionado, na reunião, sobre que providências o sindicato iria tomar. "Não é o sindicato que deve tomar providências quanto Adriano, mas sim asautoridades, que não devem dei xar que ele faça isso. O que nãodar certo é as autoridades cruzarem os braços e virem me per guntar o que devemos fazer. Adriano não é nada e está dando um prejuízo desses atodos os Aracajuanos, e as auto ridades não se mexem. O 'cara' é um bagunceiro, e todo mundo está dando muita importância e apoio a ele. É inadmissível que um pessoa, que não pertence alugar algum, pare todo um sis tema de transporte de 4h da manhã até agora", reclamou ele. O Sindicato das Empresas do Transporte Público (Setransp) informou que os motoristas que se sentemprejudicados, devem procu rar a Delegacia Regional doTrabalho para denunciar irre gularidades nos pagamentos de direitos, como salário e cargas horárias excessivas. Sobre a greve, o Setransp revelou que a 6ª vara cível,considerou que a greve é ile gal, e por isso não haverámais negociação. O aumento oferecido pelos empresá rios aos rodoviários é de 6,5%. Liminar - O juiz da 6ª Vara do Trabalho, AntônioFrancisco de Andrade deter minou que Adriano Oliveirae representantes da comissão de negociação dos rodoviários se abstenham de lide rar o movimento. A 6ª Vara do Trabalho emitiu por meio do juiz Antônio Francisco deAndrade, mandado favorável a Viação Progresso, quan to à ilegalidade da greve dos rodoviários, iniciada por volta das 4h da madrugada desta sexta-feira, 27. O juiz determinou aos oficiais de Justiça da 20ª Região do Trabalho, que fossem até olocal da manifestação grevista, verificar em seu cumpri mento, se a liminar expedidano processo está sendo des cumprida por Adriano Oliveirae a comissão que ele repre senta. O documento expedido pela 6ª Vara do Trabalho, diz ainda que, caso seja criadoqualquer obstáculo ao cumprimento do presente, fica o oficial autorizado a solicitar auxí lio de força policial. Mesmo com a liminar,motoristas e cobradores deci diram manter o movimentogrevista por tempo indeterminado. Adriano Oli veira, não é mais o porta-voz da Comissão de Negociação. De acordo com MarcosRocha, que integra a comis são, a greve foi uma decisão dos rodoviários e não de Adriano. fOTOS: Lindivaldo Ribeiro/CS Motoristas e cobradores pararam as atividades no início da manhã De braços cruzados, categoria reivindica reajuste salarial e mais condições de trabalho Quem depende do transporte coletivo sofreu durante o dia de ontem João Batista (presidente do Sinttra) e Antônio Samarone (secretário de Transporte)